Por Matheus Klinger — Jornalista
A possível recontagem das vagas da bancada federal de Alagoas reacendeu um antigo debate eleitoral: quando a matemática da regra proporcional é alterada, toda a correlação de forças muda — e ninguém está imune aos seus efeitos. Com a anulação dos votos do suplente João Catunda (PP), que obteve 24.754 votos nas eleições de 2022, o cálculo do quociente eleitoral e partidário pode sofrer modificações que impactam diretamente o mandato do deputado federal Paulão (PT).
Regra é regra — e pode virar boomerangue
Sejamos justos: em 2022, a regra eleitoral beneficiou Paulão. Com 65.814 votos, o petista foi eleito graças ao desempenho coletivo da chapa do PT, que ultrapassou o quociente eleitoral e garantiu sua vaga.
No mesmo pleito, Nivaldo Albuquerque (Republicanos) — que recebeu 67.697 votos, mais votos que Paulão — acabou ficando de fora exatamente por essa mesma regra. A eleição proporcional não privilegia somente a votação individual, mas o conjunto obtido pela coligação ou federação.
A mesma lógica também afetou e favoreceu outros nomes que ficaram atrás de Paulão, mas receberam votações expressivas:
Todos foram eleitos pela mecânica da proporcionalidade — e todos, individualmente, tiveram menos votos que Paulão. Ou seja: a mesma regra que beneficiou alguns, prejudicou outros.
Agora, com a anulação dos votos de Catunda, o tabuleiro se mexe outra vez.
O efeito dominó causado pelo caso Catunda
João Catunda, figura polêmica na política alagoana, viu seus votos serem anulados em decisão judicial ligada a sua participação em atos sindicais e sua exposição pública durante a campanha.
Embora fontes ligadas à defesa afirmem que não houve dolo, mas sim falha gráfica devidamente documentada nos autos, o desgaste político foi inevitável. O episódio da sua aparição em manifestações do Sindsaúde — interpretadas como ato de campanha — também pesou negativamente.
O fato é: com a exclusão dos seus votos, a proporcionalidade do PP pode cair, e isso repercute diretamente no cálculo final das sobras eleitorais. E é justamente nesse ponto que o nome de Paulão passa a correr risco.
A matemática eleitoral não é emocional — é técnica
Ao retirar 24.754 votos da conta do PP, o partido perde força na disputa das sobras. E dependendo da redistribuição, a nova composição pode favorecer quem possui votação nominal mais alta na disputa pelas vagas.
Nesse cenário, Nivaldo Albuquerque surge novamente como potencial beneficiado — justamente ele, que em 2022 foi “prejudicado” pela mesma regra que agora pode tirá-lo da condição de injustiçado.
Regra é regra. E quando ela muda, não muda para “A” nem para “B”: muda para todos.
Catunda, Renan e JHC — a novela paralela
Vale lembrar que João Catunda ganhou repercussão em 2022 ao protagonizar embates públicos, especialmente com o senador Renan Calheiros (MDB) — críticas que marcaram sua campanha. Posteriormente, aproximou-se novamente do prefeito JHC (PL), seu adversário político à época.
Fontes próximas afirmam que todo o imbróglio envolvendo sua inelegibilidade foi uma mistura de amadorismo, empolgação e tentativa de aparecer para irritar o então “arqui-inimigo”.
Independentemente dos bastidores, a conta política chegou — e agora respinga em toda a bancada alagoana.
O jogo está aberto
O processo ainda segue tramitação legal, mas caso a decisão seja confirmada, o impacto será direto no cálculo das cadeiras. E nesse tipo de jogo, não há “mérito” na vantagem: há matemática.
A mesma matemática que beneficiou Paulão em 2022 pode agora derrubá-lo.
A mesma matemática que prejudicou Nivaldo pode recolocá-lo no jogo.
A mesma matemática que colocou Rafael Brito, Daniel Barbosa e Fábio Costa para dentro da Câmara Federal pode, mais uma vez, mudar o tabuleiro.
O fato é simples e inalterável: regra é regra. E a política vive dela.
Vale Lembrar que o Dr. JHC obteve 92.594 votos e ficou de fora, já Nivaldo 67.697 votos também.