A eleição presidencial de 2026 começa a desenhar um fator que pode ser decisivo na reta final da campanha: o voto feminino. Mais do que representar a maioria do eleitorado brasileiro, as mulheres aparecem como um grupo capaz de definir o teto de crescimento, o nível de rejeição e a capacidade de consolidação dos principais candidatos.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, o eleitorado brasileiro chegou a 155,38 milhões de pessoas aptas a votar em dezembro de 2025, após crescimento superior a 1 milhão de registros ao longo do ano. No recorte por gênero, o cadastro feminino também avançou, com aumento de 548,4 mil eleitoras entre maio e dezembro de 2025.
Esse peso numérico transforma o voto das mulheres em um ativo político indispensável. Em eleições polarizadas, onde a diferença entre candidatos pode ser estreita, conquistar ou perder apoio feminino pode significar a diferença entre chegar fortalecido ao segundo turno ou bater em um teto de rejeição difícil de superar.
Levantamento Genial/Quaest citado pela EXAME mostra uma distância expressiva no comportamento eleitoral entre homens e mulheres. No cenário apresentado, 41% das mulheres afirmam que votariam em Lula, enquanto 24% escolheriam Flávio Bolsonaro. Entre os homens, a disputa aparece mais equilibrada: 37% para Lula e 34% para Flávio.
A diferença revela o chamado “hiato de gênero”, fenômeno observado em várias democracias, no qual homens e mulheres passam a expressar preferências políticas distintas, não apenas por identificação partidária, mas também por percepções diferentes sobre economia, proteção social, direitos, segurança, família, comportamento público e estabilidade institucional.
Para cientistas políticos, esse recorte exige uma leitura mais cuidadosa das campanhas. A mulher eleitora não deve ser tratada como um bloco único, mas como um segmento plural, formado por mães, trabalhadoras, empreendedoras, servidoras públicas, profissionais liberais, jovens, idosas, mulheres periféricas, religiosas, chefes de família e eleitoras independentes. O erro de qualquer candidatura é imaginar que uma mensagem genérica será suficiente para dialogar com realidades tão diferentes.
No plano nacional, a disputa segue aberta. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em junho apontou Lula à frente de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno por 44% a 38%. No primeiro turno, o mesmo levantamento indicou Lula com 39%, Flávio Bolsonaro com 29%, Renan Santos e Ronaldo Caiado com 3% cada, e Romeu Zema com 2%. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre 5 e 8 de junho e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
O dado mais importante, porém, não está apenas na fotografia da pesquisa, mas na tendência. Quando o eleitorado feminino se distancia de determinado candidato, não se trata apenas de perda de votos diretos. O impacto costuma atingir também a imagem pública, a rejeição familiar, a influência em redes de convivência e a capacidade de transferência de confiança dentro dos lares.
As mulheres, historicamente sub-representadas nos espaços de poder, têm ampliado sua força como eleitoras decisivas. Ainda que a presença feminina em cargos eletivos continue abaixo do peso real que elas possuem no eleitorado, sua influência no resultado das urnas é cada vez mais evidente.
Para 2026, a campanha que compreender melhor essa realidade sairá na frente. Não bastará falar para as mulheres apenas em datas simbólicas ou com peças publicitárias emocionais. Será preciso apresentar respostas concretas sobre custo de vida, saúde, educação, segurança, emprego, cuidado com os filhos, proteção contra violência e respeito à autonomia feminina.
O voto feminino não será apenas um recorte estatístico. Será um termômetro da sensibilidade social das candidaturas. Quem ignorar esse movimento poderá descobrir tarde demais que a eleição não se decide apenas nos palanques, nas alianças ou nos debates televisionados, mas também na percepção silenciosa de milhões de mulheres que avaliam, com autonomia crescente, quem merece confiança para governar o país.