Não há democracia sem povo

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Não há democracia sem povo
O silêncio dos privilégios e a luta por justiça em Alagoas

A história não pode ser contada pela metade.

 

O Brasil nasceu sob a marca da colonização.

Alagoas também.

E os povos originários, a população negra, os trabalhadores do campo e das periferias continuam presentes, resistindo e afirmando sua existência.

 

Democracia não combina com mordaça.

Democracia é confronto legítimo de ideias.

É reconhecer que o conflito social existe e enfrentá-lo com políticas públicas, justiça e responsabilidade diante da história.

 

Uma democracia verdadeira não se define pela ausência de tensões.

Ela se revela na capacidade de encarar desigualdades com coragem, respaldo legal e compromisso com o interesse coletivo.

 

Ser de esquerda não significa ser contra Alagoas.

Significa defender uma Alagoas mais ampla, mais justa, mais plural.

Uma Alagoas que pertença a todos.

Não a uma minoria.

Não aos privilégios perpetuados.

Não às estruturas que, há décadas, concentram terra, renda, poder e influência.

 

Alagoano.

Jornalista.

Com lado.

 

Quando trabalhadores se unem para reivindicar dignidade, são tratados como perigo.

Quando grupos tradicionais acumulam terras, riqueza e poder, isso costuma receber o nome de estabilidade.

 

O ponto central não é a desordem.

É o modelo de estado.

É discutir a serviço de quem operam as instituições.

É perguntar quem produz, quem sustenta, quem enfrenta privações e quem se beneficia da desigualdade.

 

Alagoas também carrega as marcas de invasões, expulsões, silenciamentos e concentração de poder.

Reconhecer esses fatos não apaga a trajetória de ninguém.

Pelo contrário.

Permite compreendê-la com mais profundidade e honestidade.

 

A questão que precisa ser feita é objetiva:

quem historicamente teve acesso à voz, à terra e ao poder em Alagoas?

E quem, geração após geração, precisou lutar apenas para existir, trabalhar e ser reconhecido?

 

Reforma agrária não é fantasia ideológica.

É previsão constitucional.

É mecanismo de justiça social.

É reparação histórica.

É enfrentamento da fome.

É possibilidade de produzir alimento em territórios que, por muito tempo, foram marcados pelo abandono, pela especulação e pela concentração.

 

Em um estado atravessado por desigualdades profundas, causa inquietação ver a tentativa de criminalizar quem luta por direitos.

Chamam o povo organizado de extremista.

Mas silenciam diante de estruturas que historicamente negaram terra, renda, educação e dignidade à maioria.

 

Esquecem que antes da escritura havia memória.

Antes da cerca havia gente.

Antes dos privilégios herdados havia vidas empurradas para as bordas.

 

Em Alagoas, assim como no Brasil, a democracia só cumpre seu papel quando serve ao povo.

Quando enfrenta injustiças de frente.

Quando rompe com o silêncio conveniente.

Quando não foge da verdade.

 

Dêvis Klinger

Jornalista. Alagoano. Com lado.

 


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